quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Petição em verso

O Desembargador Arthur Moura, do Tribunal de Justiça da Paraíba, quando Juiz de Direito da Comarca de Campina Grande, foi procurado pelo Advogado e repentista Ronaldo Cunha Lima (hoje, ex-Governador e ex-Senador) para liberar o violão de um Boêmio, detido pela Polícia. A pedido do Magistrado, a petição foi formulada em versos, e o despacho, condensado numa quadra.


O PEDIDO

O instrumento que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver, nem pistola,
É simplesmente, doutor, um violão.

Um violão que, em verdade,
Não matou, nem feriu um cidadão
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

Violão é sempre ternura
Um instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Inexiste entre ambos afinidade.

O violão é próprio dos cantadores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam as mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e néctar que extasia
É a dor espiritual do coração

Seu viver, como o nosso, é transitório,
Mas seu destino não, se perpetua,
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivado em Cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite,
Que se sente vazio em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, doutor Juiz,
Em nome da justiça e do direito,
É crime, por ventura, um infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores
Perambular na rua o desgraçado
Derramando na praça suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza de seu acolhimento.
Juntada desta aos autos, nós pedimos,
E pedimos, também, deferimento.


O DESPACHO

Para que não se carregue
Remorsos no coração
Determino que se entregue
A seu dono, o violão.


Retirado do Blog Curiosidades Jurídicas.

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